sábado, 2 de junho de 2012
Não suporto - ato I
Quero ouvir música.
Dou inicio ao momento, meto os fones e tal, já toda contente porque vou ter o meu momento zen, em que posso pensar naquelas coquisses todas que um ser normal pensa, dependendo da música que está a tocar, e de repente está um ser ao meu lado que "blá blá blá blá blá blá blá" e depois "blá blá blá blá blá blá blá blá blá", nada suavemente e eu, como pessoa educada que sou, tiro um fone mesmo a comunicar "tive de parar o que estava a fazer porque tu quiseste, mas eu queria era mesmo ouvir a música". E a pessoa, ri-se e continua "blá blá blá blá blá blá blá", e eu não rio, porque não tou a achar piada, mas sorrio. Sorrio porque fica bem. Mas não respondo. Não respondo porque nem sequer estou a ouvir patavina daquilo que me está a ser dito. Entretanto, a pessoa remete-se ao seu silêncio. Mas não se calou só para eu poder ouvir musica. É mesmo porque, como não sabe o que dizer, fica ali uns tempinhos a pensar no segundo tema que deve introduzir. E é neste momento que eu agarro, muito sorrateiramente (leia-se "violentamente" pois só assim é óbvio o meu gosto, nenhum, pelo monólogo que está a suceder), e enfio-o no ouvido com toda a minúcia que se deve ter quando se mete um fone neste buraco, tendo em conta que é mais o tempo que o coitado passa a cair do que aquele que está ali sossegado a fazer o seu trabalho. E é quando estou no último encaixe que, pumbas "blá blá blá blá blá blá blá". Começo a bufar. E já nem rio, nem sorrio, nem ouço a música, nem ouço a pessoa, e começo com os nervos em franja e depois caem os fones, depois começa uma música que até gosto normalmente mas naquele momento só me inerva ainda mais e depois, e depois e depois.
Depois, é isso mesmo. Que sorte existir sempre um "depois". Um "depois" de.. E depois de me fartar, de me cansar, de estar farta de ouvir, levanto-me e vou-me embora. Porque não ia ficar ali para sempre. Teria de fazer algo "depois" de acabar o tema conversacional novamente.
E qual é o problema de antecipar esse belo momento?
Absolutamente nenhum.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)


Sem comentários:
Enviar um comentário