Já não chorava há tanto tempo por ti.
Não, não foi por tua causa, foi mesmo por ti. A tua mãe ligou-me e eu fui a tua casa. Ela pediu-me para a ir ajudar no computador. Quando cheguei ao quarto, parecia que tinha levado um murro no estômago. Em cima da secretária estava tudo aquilo que te dei no nosso ultimo Natal. O álbum tão lindo com as folhas de outono.."Era uma vez..".
Fiz um esforço gigante para não o abrir. Mas estava ali. E eu toquei-lhe só pra me assegurar que as folhas ainda estavam todas coladinhas como
manda a lei. E estavam.. Então, achei que já que o tinha nas mãos, tinha de o abrir. E abri.. As lágrimas vieram a correr, talvez o quisessem ver também. Mas eu não deixei. Fiz logo 30 por uma linha para que elas voltassem para o sitio de onde tinham vindo! Ninguém as chamou para a conversa. Elas respeitaram e obedeceram.
Vi as fotos todas.. uma por uma. Tu sozinho, fotos das quais já nem me lembrava e nós. Tantas nossas. Cada página que virava, era mais um murro no estômago que levava. E ia gritando baixinho "Por favor, não vais chorar.. uau, estas fotos já tu viste mil vezes" (mentira).
Fechei o álbum e perguntei, sem me dar conta, onde estava a caixa que te tinha dado. Logo me arrependi de o fazer. Parecia que tudo, no meu corpo, estava contra mim. Não era eu que queria chorar, nem fazer perguntas. Era outra coisa qualquer.. essa mesma coisa que me fez chegar à caixa que te dei. Abri e recordei tudo daquela noite. Eu a chorar por saber que, muito provavelmente, seria o nosso ultimo Natal e tu a chorares por teres, não só, gostado do que te havia dado, mas também porque sabias que, nesse mesmo dia tinhas andado de braço dado com ela.. e eu não sabia. E agora percebo que o teu olhar era de pena. Pena por veres tudo o que fiz por e para ti, sem saber de tudo aquilo que tu fazias.
Agarrei nas minhas velas dos 18 anos, que quis que guardasses, no meu fio de cabelo, nas passas que queria que comesses nesse ano novo, no pacote de lenços, etc, etc.. Mas não vi o meu frasco de perfume. Quando falei com o D., ele disse-me que o tinhas levado para tua casa..mas eu não acreditei. Hoje pude comprovar. Fiquei contente, admito. Mas talvez o tenhas perdido, ou talvez o tenhas dado àquela que agora te enche o coração. Não sei nem sei se quero saber, sinceramente.
Fechei a caixa, guardei o álbum e fui ter com a tua mãe à cozinha. Ela tinha-me deixado sozinha contigo e com as lembranças que eu tinha de nós. Aquelas fotos, aquele cheiro tão peculiar do teu quarto onde tantas vezes estive.. tudo isso estava prestes a rebentar. E eu sabia que ia rebentar. No entanto, esperei e disse para mim mesma que só iria acontecer quando saísse daquela casa.
Cheguei à cozinha e ela abraçou-me. Perguntou se eu já tinha matado as saudades todas e eu não aguentei. As lágrimas não obedeceram. E acho que, sinceramente, nem as mandei recuar. Vinham com demasiada força. Ela percebeu e começou a chorar também. Que duas Marias Madalenas ali estavam! Ela obrigou-me a ir lavar a cara e começou a falar de outras coisas.. mas logo se apercebeu que não ouvi nada e calou-se. Pediu para eu ficar. Mas eu não quis. Queria estar sozinha, ir embora. E assim foi. Deixei-a lá e disse a mim mesma que, tão depressa, não lá hei-de voltar.
Foi o meu primeiro dia de praia. Estive lá umas duas horas. Não conseguia parar de chorar. Soluçava, falava, chorava compulsivamente. Foi tão estranho! O saco onde guardei todas as lágrimas que não chorei por ti desde já nem sei bem quando, saíram hoje. Todas.
Quando comecei a ficar melhor, quando senti que realmente estava "apta" para conviver sem chorar, levantei-me e vim embora.
Se, durante aqueles 4 anos, duvidei, por algum dia, do meu sentimento por ti, desde há dois anos para cá que tenho mais certeza que eras mesmo a metade que me faltava. E talvez seja por isso que ando tão em baixo desde que foste embora. Nunca mais fui a mesma. E eu reconheço isso a cada semana, mês, ano que vem e vai.
Faz bem chorar sim.. Mas até que ponto é bom chorar por ti?