Ter dois amores.Ter dois amores é complicado, é estranho, ensurdecedor, deixa as pessoas mal dispostas, felizes, indecisas, inquietas, desajustadas, fracas, hesitantes. Ter dois amores outrora parecia-me algo impensável mas agora, cada vez mais, vejo por aí pessoas nessa situação..pessoas que trocam este por aquele julgando que será melhor e que, tendo sorte, se ficam, e outras que logo logo se arrependem e voltam para trás. Acredito que isto aconteça não por que tenham muito amor para dar mas sim porque se identificam com muitos amores. O facto de se ter dois amores, não significa que se goste menos daquele que chegou primeiro. Significa que o segundo, aquele pelo qual se julga ter uma "paixão'zeca sem importância" (teimam em dizer isto a si mesmos na esperança de que passe logo), aparenta ser melhor em muitas coisas que o primeiro. O segundo dá flores, o primeiro já não gasta dinheiro com essas coisas. O segundo elogia-te todos os dias, o primeiro já elogiou tantas vezes que julga ser desnecessário estar sempre a fazê-lo. "O segundo".. Que expressão mais desvalorizante. O segundo é aquele que vem depois. É aquele que não encantou à primeira vista mas que, ao passar mais vezes, deixou a sensação de que, provavelmente, seria interessante conhecê-lo. "O segundo" é sempre tão bom no início. O segundo é novidade, é vontade, é tudo o que o primeiro já deixou de ser há muito tempo. E é por isso que as pessoas se embeiçam. É por isso que a novidade se torna sempre tão apetecível. É por isso que, tendo a possibilidade de ter um telemóvel novo, que se julga ser melhor, o primeiro é deixado para trás, mas não para trás totalmente. Quer-se que fique ali, no canto do quarto à espera que a vontade de o ter novamente, surja.. Quer-se, porque no fundo, sabe-se, que, quando te fartares da novidade, daquilo que aos teus olhos parece ser tão "bom", irás voltar a pegar nele. Irás voltar a desejar o conforto, o hábito, o cheirinho das antigas recordações, a lembrança do que passou. E no que se torna o segundo quando comparado com isso tudo? Em nada. E é nesta confusão de sentimentos, vontades e quereres que andas. O segundo pode fazer tudo por ti. O segundo pode ter muitas mais aplicações, pode dar para ir ao facebook, pode ser em 3D, mas em breve reparas, já farto de tanta novidade à qual não estávas habituado, que o segundo não te enche. Falta-lhe qualquer coisa. Talvez lhe falte ser aquele que, mesmo não te dando flores, tinha aquele jeitinho tão peculiar de se assoar. Talvez lhe falte ser aquele que, mesmo não te dizendo que és linda todos os dias, já te conhecendo de todas as maneiras e feitios, continua a olhar para ti do mesmo jeito. Talvez lhe falte ser o primeiro. E é aí que talvez tenhas noção de que não podes ter tudo aquilo que queres. Nem podes ter uma compilação de ambas as qualidades. É aí que, já escolhida a opção, não há volta a dar até porque o orgulho ferido é o estado de espírito que mais obriga as pessoas a não voltar a fazer as coisas, por muito que queiram.Se deixas o primeiro a um canto, encantado com a novidade, é normal que ele se desligue, que se estrague, que morra com o tempo. E, quando te dá aquela sensação de "que saudades daquele que, mesmo não vibrando quando me ligavam, fazia tantas outras coisas e viveu tantos anos dentro da minha mala", já é tarde. Somos seres fracos então. Encantamo-nos facilmente, julgamos que o que vem a seguir é sempre melhor que aquilo que já tinhamos. Desvalorizamos aquilo que, só por já ter tantos anos a nosso lado, se tornou hábito. E é essa a resposta que dás quando te confrontam com a tua mudança, "oh, já era mais hábito que outra coisa". Mas não. Não é hábito quando te lembras, não é hábito quando choras, quando tremes, quando pensas, quando sonhas. Isso é tudo, de bom, menos hábito.Li algures uma frase que dizia "se você acha que ama duas pessoas ao mesmo tempo, fique com a segunda, pois se amasse a primeira, não existiria uma segunda". Cada pessoa é única e aquilo que nos dá, aquilo que é para nós, também é único. Então é aí que é preciso parar, é preciso pensar e decidir o que queremos para nós. Se é o conforto, as coisas já tão tidas, as coisas já tão vividas, sonhadas, inventadas, criadas ou se é a novidade, o começar do 0, o conhecer, o desconhecer, o imaginar, o descobrir, o novo. É preciso não ter indecisões. É preciso não andar a saltar de casa em casa qual boneco de monopólio. E, acima de tudo, nunca ter medo de fazer aquilo que se sente que está certo mesmo que os outros não concordem. Basta que te certifiques apenas de que a tua decisão não vai contra a tua consciência.