- Que pergunta! Depende. Os amores não são todos iguais. Há amores que duram uma vida inteira e outros que não...
- E o nosso de que tipo é?
- Também é uma boa pergunta Margarida. O nosso.. O nosso é um amor daqueles que nem sequer devia ter começado.
- A sério? Já terminou?
- Não disse que terminou, disse que não devia ter começado. É uma coisa diferente.
- Não sei se é uma coisa diferente. Carlos, diz-me sinceramente, o facto de que não devia ter começado quer dizer que tem de terminar agora?
- Não te sei responder, Margarida, tu fazes perguntas que parecem simples mas são mesmo muito complicadas.
- Eu não percebo as tuas respostas.
- Não as percebes porque não as podes perceber.
- Então explica-mas.
- Gostaria de o fazer mas não consigo.
- Não gosto nada destas voltas que dás à conversa Carlos! Há uns meses encontrámo-nos e, passado pouco tempo, pediste-me que viesse para cá morar.
- Tens mesmo a certeza de que te pedi?
- Não! Mas foi natural. Vim para cá nessa noite e depois fiquei.
- Pois, mas eu não sabia que ficavas. Não tinha pensado nisso.
- Mas foi bonito...
- Muito. Margarida, escuta, eu não vou ficar cá, vou-me embora.
- Está bem. Iremos para onde quiseres.
- Para onde eu vou, tu não podes ir. Irá outra pessoa comigo!
- Quem?
- A minha mulher. Ficou lá em cima no Norte. Ficou à espera que eu encontrasse trabalho. Como não encontrei, vou ter com ela e partiremos para o estrangeiro. Tenho pena Margarida...
- Como é fácil, Carlos..Tu falas e parece tudo fácil, como se nós nem fôssemos verdadeiros, mas apenas uma das tuas brincadeiras. Levavas-me a passear oferecendo-me o mundo inteiro e na outra ponta de Portugal havia uma mulher que era tua esposa, uma mulher que estava à tua espera. Falaste-lhe de nós dois?
- É claro que não! Nunca achei que a nossa história tivesse um futuro. Margarida, gosto muito de ti, mas aquela é a mulher que quero e com quem decidi viver, ter uma família...
- E do filho que estou à espera, que pensas fazer?
- Quê?? Tu estás grávida?? Não sei..Espero que não me queiras arranjar problemas!
- Não Carlos, não vou arranjar-te problemas nenhuns! É como se nunca nos tivessemos conhecido, como se nunca se tivesse passado nada!
- És um anjo Margarida..uma rapariga de ouro..e..e..podes ficar nesta casa. É pequeníssima, mas para ti e para a tua criança irá dar. Que nome lhe vais dar?
Mas Margarida não respondeu, levantou-se da mesa e começou a fazer a mala de Carlos. Não, não podia chorar, não agora. Como as coisas podem mudar de um momento para o outro?! Fazia bem em arrumar-lhe a mala, era o gesto evidente da mulher que quer logo pôr à porta o homem que a enganou. Ao vê-la tão determinada, talvez ele pensasse melhor..talvez se arrependesse. Mas a partir da cabeça, aquele choro desembarcava mais em baixo no peito como um balde de metal cheio de água que lentamente, com uma corda, se faz descer com cuidado para não entornar. <Nem uma lágrima, Margarida!! Deixa que este peso desça dentro de ti, que pare onde quiser, mas ainda cheio.>
Carlos encontrava-se à janela, a fumar, de costas para a brisa ligeira da noite, de olhar fixo no quarto, sem o pousar em nada em particular.
Entretanto, ao descer, o balde de água que Margarida tinha dentro dela, começou a bater contra as paredes internas do corpo, a dar-lhe uns safanões que começaram a fazê-la vacilar. Com uma camisa na mão, viu a sala rodopiar e caiu redonda no chão.
Acordou já deitada na cama. A primeira coisa que disse foi "Carlos..." mas a sua voz ecoou pela casa, sem resposta. Olhou melhor ao seu redor e encontrou uma carta que continha a letra daquele que lhe havia destroçado o coração, horas atrás:
"Querida Margarida,
A nossa história foi breve, mas a generosidade do teu amor sincero, levo-a comigo e jamais a esquecerei. Embarco pela alvorada. Quando leres estas minhas palavras, já terei partido. Se puderes, perdoa-me.
Teu, Carlos."


