Esta é, sem dúvida, uma grande mentira e hoje pude comprová-lo.
Hoje, através das palavras que a minha mãe ía desenrolando, pude perceber que quando se ama por inteiro, não há obstáculo que não se ultrapasse e não há nada que nos possa deitar abaixo quando, está ao nosso cargo, impedir alguém de cair.
Hoje o meu primo ensinou-me, sem sequer ter noção disso, que quando se gosta de alguém como ele gosta da mulher, que se faz tudo o que estiver ao nosso alcance para que aquela pessoa, a "tal" pessoa, consiga estar sempre no topo.. O meu primo, hoje, mostrou-me que a típica frase "o amor vence tudo" tem muita razão de ser e que quando gostamos de alguém, não importa o quanto tenha de se dar até porque tudo o que se dá, é sempre muito pouco.
O meu primo perdeu a filha à duas semanas. Aliás, ambos perderam a filha à duas semanas. Duas semanas, trocado por miúdos, significa ontem. Isto porque quando algo de mau nos acontece, parece sempre que esse mesmo mal teima em seguir-nos durante meses, anos, décadas.. Ao contrário do bem, que acaba por ser, sempre, tão efémero. Não significa que prefiramos o mal ao bem..nada disso. Apenas significa que o mal tem mais impacto na nossa vida que o bem. E, sempre que uma coisa negativa nos acontece, teimamos em arrastá-la connosco durante tempos e tempos..não até a esquecer, dado que isso é totalmente impossivel, mas sim até nos habituarmos a ela. Até nos habituarmos aquela dor. Até começarmos a aceitar que aquilo, quer queiramos, quer não, já faz parte de nós..
O meu primo, após perder a filha, após a ter morta nos braços, após ter de esperar, sozinho, pela família, no longo corredor do hospital enquanto chorava, após enterrar a sua filha, que nem ainda não tinha nascido e já tinha partido, conseguiu fazer de mim, a sobrinha mais orgulhosa do mundo.
Após o dia do nascimento, após a ida da Maria para Lisboa com a finalidade de ser autopsiada, o meu primo permaneceu, dia após dia ao lado da mulher. Não comia mas ia buscar comer para ela. Queria chorar mas não a deixava chorar a ela, e por isso mesmo chorava sozinho, à noite, em casa, visto que era impedido de passar a noite ao seu lado, para a confortar, para lhe dar segurança e mostrar, minuto após minuto, que juntos ultrapassariam tudo.
O meu primo mal começava a amanhecer ia a voar para o hospital, ia a voar ter com aquela que lhe preenche os dias. Era o primeiro a chegar ao hospital e o primeiro a chegar ao quarto onde ela estava..depois de atravessar por um longo corredor com mães que acabavam de ter os seus bebes à poucos minutos e que, por isso, os tinham bem aconchegados nos seus regaços enquanto lhes acalmavam o choro.
O meu primo fazia este percurso pé ante pé sempre com a esperança de ver ambos os amores da sua vida no quarto, à espera de um beijo dele.. à espera de um "Pai", vamos para casa.. Mas nada disto acontecia. Quando ele chegava ao quarto, apenas estava lá ela.. apenas estava lá ela a chorar, sem forças para se levantar, sem vontade sequer de viver..visto ter perdido o seu bem mais precioso. O bem que tinha carregado consigo durante nove longos meses. O meu primo, não me perguntem como, mal abria a porta da sala, arranjava todas as forças do mundo para enfrentar mais um longo dia de choro, tristeza, culpa, desilusão e, acima de tudo, perda. Sim, houve momentos em que foram ambos abaixo..mas ele logo voltava para cima e a trazia com ele.
O parto foi bastante doloroso, dado que a Maria estava morta, e, por isso mesmo, a mãe teve de fazer forças extra para a conseguir meter cá fora dada a inexistencia de ajuda por parte da bebé. Começou a tornar-se complicado e o médico viu-se obrigado a cortar, bastante, a mãe.
Estes cortes tiveram consequências nos dias que se seguiram..consequências essas como a constante perda de sangue e consequente fraqueza não só emocional como física. Sempre que as enfermeiras chegavam prontas para lhe ir dar banho, o meu primo dizia "Não. Quem lhe dá banho, quem a leva à casa de banho e quem cuida dela, sou eu. Pois sou eu que a conheço e é em mim que ela tem confiança." O meu primo levou-a à casa de banho, ela começou a perder imenso sangue e desmaiou.. O meu primo agarrou-a, colocou-a em cima da cadeira de rodas, levou-a para o quarto, deitou-a, dirigiu-se às enfermeiras, pediu um balde e uma esfregona e limpou tudo aquilo que ela havia sujado.
Os médicos disseram que nunca viram nenhum homem assim e já presenciaram alguns casos em igual situação.
O meu primo não é como os outros homens. E se, até hoje, eu afirmava com toda a tristeza e igual certeza que, os homens são todos iguais, posso garantir que isso é uma tremenda mentira. E, a partir de hoje, a partir de agora, vou defender essa opinião e fazer de tudo para mostrar a quem estiver "contra mim", que sim, há homens com quem podemos contar venha quem vier..aconteça o que acontecer.
Hoje vou dormir com o peluche que tínhamos comprado para ti Mariana. Hoje, amanhã, no outro dia, sempre.. E agora, sempre que rezar, ainda irei reforçar mais a parte "obrigada pela família que me deste."
É tão bom regressar a casa.